Dachau – Alemanha

Dachau – Alemanha

Eu demorei pra escrever esse post porque eu não sabia por onde e nem como começar, é uma parte da nossa viagem que conhecemos e que foi algo muito triste e pesado, mas estando na Alemanha, não pude deixar de ir. Pegamos um trem em Munique, depois pegamos um ônibus e em 10 minutos chegamos em Dachau. Antes de sair, Rick me perguntou por umas duas ou três vezes se eu realmente tinha certeza de que queria ir até lá, porque convenhamos, essa situação não é algo que dá pra se classificar como um passeio e muito menos como legal, mas também não deixa de ser uma parte da história.


Primeiro de tudo, um pouco da história…

Dachau é um campo de concentração e extermínio que foi construído pelos nazistas em 1933 aonde antigamente era uma antiga fábrica de pólvora que fica na cidade de Dachau, cerca de 5 quilômetros de Munique. Dachau foi o primeiro campo a ser construído no regime hitleriano, mais precisamente cerca de seis semanas após Hitler ascender ao poder. Depois disso, Dachau serviu como modelo para outros campos que posteriormente foram construídos.

Segundo minhas leituras que fiz no Wikipédia, Dachau chegou a abrigar mais de duzentos mil prisioneiros de mais de trinta países (é muita gente) e, a partir de 1941, foi usado para o extermínio de cerca de trinta mil pessoas (gente?!?! 30 M I L pessoas). Muitas outras pessoas morreram em virtude das condições do campo. Dachau chegou a possuir uma câmara de gás, mas não há registros de que tenha sido usada (o que sinceramente eu duvido e muito). Segundo cálculos da Igreja Católica, pelo menos três mil religiosos entre padres e bispos foram mantidos lá, além de muitos políticos também.

No dia 28 de abril de 1945, um alto comissário da Cruz Vermelha – Victor Mauer, tentou convencer o último comandante do campo – Heinrich Wicker, a se render. Wicker decidiu antes retirar a maioria dos guardas SS (um grande filho da puta covarde) e no dia seguinte, a 42ª Divisão de Infantaria do Exército dos EUA foi encarregada de libertar o campo de concentração. A primeira visão que os soldados americanos tiveram ao chegar ao campo, foi de centenas de mortos, empilhados, junto a um comboio de 39 carruagens. Segundo consta, os mortos estavam lá havia dias (alguns já em avançado estado de decomposição).

Os soldados, totalmente em estado de choque com a visão, tomaram para eles o lema “Take no Prisoners” (no inglês: “não fazer prisoneiros”) e começaram a executar os primeiros SS que encontraram. Há vários registros de execuções, na maioria atos de vingança individuais de soldados e até de alguns prisioneiros, que atacaram os seus antigos opressores. Após a libertação do campo, os 32 mil prisioneiros que lá se encontravam saíram num espaço de seis semanas. A libertação dos prisioneiros foi algo trabalhoso: além dos habituais problemas de desnutrição e dificuldades em arranjar transporte dos presos para o seu país natal, havia uma epidemia de tifo que dizimou milhares de judeus. Como tal, de modo a evitar uma pandemia europeia, foram curados e vacinados como prevenção antes de serem libertados.

A partir de 1948, o campo de Dachau foi usado como campo de refugiados, situação que perdurou até cerca da década de 1960, onde se construiu o Memorial que existe até hoje. Logo na entrada do campo há uma frase no portão que em alemão significa “só o trabalho te libertará.” Pelo que pude perceber somente homens foram mandados para Dachau e não mulheres, crianças ou idosos como em outros campos.


Mas Dachau é um exemplo nítido do que a estupidez humana é capaz. Logo no começo há um museu com objetos, documentos, uniformes, fotos e painéis com várias explicações… Os homens que chegavam ali eram submetidos a tudo: inclusive em experiências e testes sob condições torturantes e sem nenhuma higiene. Sem contar as humilhações, a fome, as doenças, a solidão, o trabalho escravo e a covardia por parte dos nazistas que matavam pessoas como se estivessem matando baratas.


Dachau é um campo imenso! Acho que chutando ainda baixo, dá uns 3 campos de futebol, sem brincadeira. Dizem que a câmara de gás que existe alí nunca foi usada, mas disso eu sinceramente duvido muito. O que se conta (como em todos os campos em que a câmara de gás era usada) é que todos eles tinham que tirar o uniforme, passar por um corredor de desinfecção e entrar pra uma sala que seria uma sala de banho e depois disso serviriam comida quente para todos.

Acontece que a “sala de banho” era na verdade a câmara de gás e nenhum judeu se dava conta disso: uma porque sempre tinha muita gente indo (morrendo) e chegando e segundo que eles nunca andavam com as mesmas pessoas, pois a cada dia era um trabalho ou um outro canto diferente pra se ir dentro do campo, logo, eram sempre separados, isso facilitava o trabalho dos nazistas de evitar uma possível descoberta do que acontecia alí dentro com eles.


Das câmaras de gás depois iam para as fornalhas aonde os corpos eram queimados. Se as câmaras foram realmente usadas ou não, isso não importa, porque da mesma forma, só em Dachau morreram 30 MIL pessoas e isso é um numero absurdamente grande. Nós entramos em todos os lugares possíveis: no corredor de celas aonde ficavam os políticos e os religiosos, aonde os judeus dormiam, aonde eram torturados, usados em experiências, na câmara de gás e aonde ficavam as fornalhas quando os corpos eram depois queimados.


Estando em lugar como esse te dá uma sensação muito estranha que mistura dentro de você a raiva, a tristeza e a revolta. Muito depois, em Londres, nós fomos até o Museu da Guerra e lá pudemos entrar numa parte que falava apenas sobre o holocausto, lá tinha vários objetos, documentos, e até um uniforme nazista completo com, inclusive, o nome do dono. Dentre os objetos havia alguns que eram pra medir o tamanho da cabeça e o rosto da pessoa pra certificar se realmente a pessoa era ariana, de raça pura. Eu fiquei chocada! Mas uma imagem que eu jamais vou esquecer na minha vida, foi de uma foto em um painel enorme que eu vi de um judeu sentado na beira de uma cova já atulhada de judeus mortos… O judeu com a cabeça baixa como se estivesse tomado por um sentimento de resignação, um soldado da SS apontando uma arma na nuca dele e mais ao lado, um outro soldado da SS trazendo mais um judeu para ser executado. É revoltante.

A Segunda Guerra Mundial é uma parte da história que pra se aprofundar no assunto de verdade, é necessário ler e pesquisar muito… Você se pergunta COMO alguém conseguiu convencer de que os Judeus eram a doença/problema da Alemanha? COMO que muita gente acreditou nisso (e pode ter certeza que ainda tem muita gente que acredita) e abraçou essa idéia. COMO que um soldado da SS encarava sua esposa, seus filhos ou colocava a cabeça no travesseiro e dormia com a consciência tranquila após ter matado TANTA gente – não só os homens, mas principalmente as mulheres, as crianças e os idosos também… São muitas perguntas. E em meio de tantas perguntas, cerca de 6 milhões de judeus morreram nessa guerra.


Saí de Dachau calada, pesada, triste, mas cheia de pensamentos na cabeça que apesar de tudo, por questões históricas – pra mim valeu a pena ter conhecido. Não sairia recomendando pra todo mundo – quando alguém viajasse pra Alemanha, ir conhecer Dachau, porque alguns são mais sensíveis que outros, o clima é pesado de verdade e estar alí e ver tudo aquilo de fato, não é algo fácil.


Quando voltei de viagem fiz questão de (re)assistir e ler algumas coisas: (re)vi “A Lista de Schindler”, “O Pianista”, li “O Diário de Anne Frank’, agora estou lendo “Treblinka” e essa semana que passou, eu assisti “O Menino do Pijama Listrado” (que agora também quero o ler o livro). Dessa vez vi tudo com uma visão diferente do que aquilo que aprendi na escola, vi porque eu estive lá e senti de perto como é! Mesmo no Coliseu de Roma quando entrei, eu senti aquela energia pesada, afinal muita gente também morreu alí, mas não tão pesado como em Dachau! Talvez por ser algo que de certa forma ainda seja recente, talvez porque por mais que a gente assista os noticiários com tantas tragédias e atrocidades na tevê todos os dias, você percebe que o ser humano pode ser bem pior do que isso.

Eu gostaria de ter conversado com a geração mais velha de alemães lá em Munique, a geração da idade dos nossos avós…. Gostaria de ter conversado se primeiro de tudo, é claro, eu soubesse falar alemão. Mas perguntaria sobre o que acham da Guerra e tenho certeza que, infelizmente, eu teria duas respostas! Eu me pergunto, inclusive, se o mundo seria diferente se essa guerra jamais tivesse existido. E pelo menos pra essa pergunta eu tenho a resposta: Com certeza seria!!! Seria diferente em todos os sentidos. Seria para nós, um mundo melhor.

Próxima parada: Praga – República Tcheca

Juliana Esgalha Post por