Real Índia

MÚSICA DO DIA: BETTER MAN – PEARL JAM

Clique no para ouvir.

Real Índia

Pra quem acha que a Índia é aquilo que a novela da Globo mostra todos os dias na tevê, se engana feio. De todos os lugares do mundo, a Índia é um dos únicos e o primeiro da minha lista que eu passaria BEM longe, tão longe que mesmo se me pagassem eu jamais iria pra aquela terra. Certa vez recebi um email com imagens (verdadeiras) do Rio Ganges – o sagrado rio da Índia e fiquei chocada com tudo que vi; as pessoas escovam os dentes, tomam banho e nadam naquelas águas ao mesmo tempo em que são jogados corpos de pessoas e animais alí e isso é apenas um exemplo dentre os milhares de absurdos que acontecem todos os dias naquele lugar. Há dias estou lendo o Blog Pedal na Estrada de Arthur Simões Cardoso Neto que deu a volta ao mundo em uma bicicleta. Arthur passou por lugares incríveis; vale à pena ler todas as suas experiências e vivencias dessa fantástica viagem, entretanto sem sombra de dúvidas, a sua passada pela Índia é uma das mais interessantes e estranhas de se ler, justamente pela realidade: nua e crua! Sem rodeios ou mimimis. E se você pensa em ir algum dia para Índia procurar algum sentido pra vida do tipo sabedoria espiritual ou porque simplesmente acha que, nesse país é só aquilo que a novela mostra, fique antes sabendo no que ou o que você com certeza encontrará por lá, separei alguns trechos tirados do Blog Pedal na Estrada pra vocês (se tiverem paciência em ler). É de chocar realmente:

“…Aqui na Índia muitas vezes eu me sinto dentro de um filme. Hoje numa pequena cidade do meio de meu caminho eu me senti num cenário que seria digno do filme Mad Max. Um vilarejo seco e sujo, com ruas de areia, pessoas com turbante na cabeça e carros sem carroceria, negros de sujeira e com seu motor à mostra. Uma cena inusitada até mesmo para a Índia.”

“Já no ônibus eu me deparei com o comum: assentos projetados para pessoas com 1,60 m de altura, onde o correto seria para 2 pessoas, mas na realidade sempre se sentam no mínimo 3 em cada banco. Não precisei esperar muito para que eu já estivesse espremido no assento, entre um sujeito que estava prestes a vomitar e outro que não parava de falar e me cutucar, mesmo falando apenas hindi e sabendo que eu não o entendia. Durante 5 horas de viagem. Cinco longas horas.”

“Jaipur é a capital do Rajastão, que significa em hindi “terra dos reis”, mesmo assim é um dos Estados mais pobres da Índia, onde além das pessoas morrendo de fome e pilhas de sujeira e fezes ao lado das ruas, há uma situação ainda pior paras as mulheres. A história desse Estado está intimamente ligada aos Rajputs, um clam de guerreiros que dominou toda a região por mais de 1000 anos.”

“Pior do que isso foi chegar na rua e já ser abordado pelos lapkas. Como não estava bem e nem com paciência para eles, chamei um de lapka e a conversa esquentou. O sujeito queria me matar por que eu estava insultando ele. Eu que não estava muito feliz e já me segurando para não bater num indiano há alguns dias até gostei daquilo. Mas os motoristas de triciclo que estavam por perto seguraram o sujeito e nada de grave aconteceu no final desta tumultuada semana, na qual passei pelos locais mais turísticos da Índia e apenas me decepcionei ainda mais com o caráter do indiano.”

“Dentro do ônibus os indianos se organizaram da forma mais mal-educada possível, como só eles sabem fazer, e tomaram todos os lugares decentes do veículo. Os turistas que conseguiram um bom assento logo foram removidos e enviados para a frente, junto ao motorista (como eu no caso) ou para a última fileira de assentos. A viagem seguiu como o ônibus “expresso” parando a cada quilômetro para pegar mais passageiros.”

“Quando já perto de Pushkar o ônibus subiu uma montanha, porém ao descê-la teve alguns problemas. As marchas não entravam mais e o motorista foi controlando o ônibus cheio com o freio que não funcionava bem. Eu estava ao lado do motorista e não estava nada feliz com o o lugar onde eu estava. De qualquer forma, o ônibus conseguiu chegar até o pé da montanha e verificar que não era possível seguir mais. Nem Krishna nos ajudou desta vez. Os indianos quase bateram no motorista. Vejo o que é o indiano de verdade e não confunda com a imagem que é exportada, de um sujeito quase “santo”. Todos os passageiros esperaram no meio da pista um novo ônibus passar para nos levar até Pushkar. Logo passou um coletivo quase vazio e em pouco tempo já estávamos em Pushkar.”

“Que sufoco! Ao voltar para a rua eu tive tempo de ver as imagens mais chocantes de todas, incluindo pessoas morrendo (de verdade) em plena calçada, já com dezenas de moscas sobre seus corpos nús e semi-mortos. Seguia chocado pela ruas de Calcutá. Cada imagem era muito forte e fui sacando algumas fotos pela rua e quando foi tirar uma fotos das pessoas morrendo, um grupo de indianos chegou e me espantou como uma cachorro de rua, simulando que iriam me bater. Eu apenas saí dalí.”

“Fiquei uns 30 minutos dentro de uma gigante confusão sem precedentes, onde os caminhões empurravam os carros, os carros empurravam as motos, as motos as bicicletas, as bicicletas as pessoas e as pessoas empurravams os cachorros que não tinham para onde correr.”

“Estava feliz com o local, mas como nada é perfeito na Índia logo descobri um pequeno problema. Pulgas. Quando acordei tinha mais de 20 picadas em meus pés, as quais geravam uma coceira forte e ininterrupta. Bastava eu caminhar para sentir o comichão. Controlei-me, passei uma pomada, tomei o meu café da manhã e caí novamente na estrada, agora para chegar em Delhi. A poluição continuava forte, mais forte na medida que eu me aproximava de Delhi. Meus olhos já estavam completamente vermelhos e ardendo com tanta poluição. Pior que a poluição só os indianos mesmo. Num determinado momento eu parei a bicicleta para beber um pouco de água e ver os camelos que passavam ao meu lado no acostamento, logo chegaram algumas pessoas para apenas me olhar e nada mais. O problema é que desta vez havia uma garoto que queria algo mais. Queria tocar em tudo e quando eu me despedi ele segurou a bicicleta. Disse para ele soltar. Ele não soltou. Eu peguei uma pedra no chão e disse que se ele não soltasse eu tacaria a pedra nele. Isso falando inglês-para-crianças e fazendo mímica. Ele entendeu e ficou bravo. Soltou a bicicleta. Comecei a pedalar e ele segurou de novo. Tentei resistir, mas algo mais forte que eu fez com que eu tacasse a pedra nele – não para matar, mas apenas para ele sotar a bicicleta – ele sotou, mas ficou muito, mas muito bravo. Eu acelerei e ele começou a correr atrás de mim, mas eu tenho uma bicicleta e ele ficou para trás, dei risada da cara dele e depois fiquei com um pouco de peso na consciência do que eu fiz, mas ao mesmo tempo pensava que o garoto também havia merecido.”

“O local era grande, limpo e organizado. Tinha que haver algo de ruim e havia mesmo. Os funcionários. Logo na recepção o sujeito diz que está cheio, pergunto se posso fazer uma reserva e ele diz que está cheio para o mês todo. Pergunto se posso fazer eu reserva para o mês que vem e ele responde que está cheio para sempre. A típica educação indiana, que apenas fez eu sentir mais uma vez a vontade de surrar um indiano, mas resisti e na impossibilidade de me hospedar alí eu tive que aceitar a resposta.”

“Demorei para conseguir encontrar o local, pois estava a cerca de 7 quilômetros da onde eu estava, mas após algumas perguntas eu consegui e encontrei um lugar como eu imaginava. Sujo, lotado e com muita buzina. Não tinha opção, procurei um hotel e depois de algumas tentativas encontrei um local para passar uma noite ou duas. Após me instalar e tomar um banho gelado eu fui para as ruas, onde eu encontrei os típicos turistas que acabaram de chegar na Índia. Gastando bastante, comprando tudo, comendo por centavos e dizendo que não ligam para a sujeira porque vieram para Índia atrás de respostas e um sentido para a vida. Cada maluco com sua loucura. Eu apenas desejei boa sorte, não queria ser o estraga festa da viagem deles. Espero que eles encontrem respostas boas, pois a única que eu encontrei até agora sempre me diz: saia deste país.”

“Olhei para os lados e já havia alguns indianos olhando para a bicicleta, não para roubar (eles não roubam), mas para tocar e ficar apertando os freios e trocando as marchas como crianças curiosas. Teria que trancar a bicicleta no lado de fora, mas se fizesse isso, já sabia que iria encontrar alguém em cima dela quando eu voltasse. O forte podia ser visto de fora e eu então saquei algumas fotos e depois fui embora da região que não tinha nada de convidativa.”

“Os macacos são um problema conhecido da Índia, que está em busca de uma solução para acabar com essa praga. Os governadores têm dado bastantes idéias, quase sempre bem diferentes, como: matá-los, esterelizá-los, colocá-los numa floresta isolada do país e até mesmo exportá-los (essa foi a melhor idéia de todas). Mas a morte do vice-prefeito da capital do país por um bando de macacos foi demais e só serviu para mostrar para o mundo como a Índia é um país fora do controle.”

“Antes de chegar até a minha hospedagem eu vi nas ruas de Delhi uma matéria que me interessou. A revista Newsweek tinha em sua capa a seguinte frase: The most dangerous nation in the world isn’t Iraq. It’s Pakistan. (“A mais perigosa nação do mundo não é o Iraque. É o Paquistão.”). Comprei a revista e a matéria apenas respondeu a pergunta que eu tinha em mente, “perigoso para quem?”, obviamente que a media controlada pelo EUA tende a acreditar – ou a tentar fazer o mundo acreditar – que o que é perigoso para os EUA é perigoso para o mundo. Em outras palavras, o Taliban está mais dentro do Paquistão, atualmente, que dentro do prórpio Afeganistão, assim o Estados Unidos precisam começar a convercer o mundo que invadir o Paqusitão é necessário (obiviamente para combater o maior vilão do mundo moderno, o terrorismo, um rótulo criado pelos próprios americanos). E, em minha opinião, é o que ocorrerá em breve, só não quero estar lá para ver.”

“Em meu novo quarto havia 3 indianos, todos entre seus 40 e 50 anos. Apenas 1 deles era capaz de se comunicar em inglês os outros não. Até ai tudo bem, o problema era que um deles queria se comunicar atraves de arrotos e flatulências, o que não me agradou muito. Pensei em mudar de quarto, mas como tinha apenas mais um dia na cidade resolvi tolerar a ótima educação do meu companheiro de quarto e permanecer alí. O pior é que enquanto o sujeito arrotava e peidava ele ficava olhando para mim, mas eu não conseguia entender o porque. Como não me impressionava mais com essas “indianices” apenas aceitei o fato e fiquei quieto. O mais interessante é que depois de algum tempo o sujeito que falava inglês veio dizer que o amigo peidorrento dele havia ido com a minha cara e até queria meu site para acompanhar minhas aventuras. No final das contas, todos os gases eram apenas um bom sinal, praticamente uma prova de amizade. Que bom. Apenas não queria saber o aconteceria coso o sujeito não houvesse gostado de mim.”

“A estrada estava melhor neste trecho, já que não havia nenhuma obra acontecendo, porém a poluição continuava forte, o que me fezia usar uma máscara de médico para evitar respirar tanta sujeira. Assim, o caminho seguiu sem muitas surpresas, apenas o normal: veículos na contra-mão e motoristas que vem propositalmente em minha direção figindo que vão bater em mim, só para fazer eu desviar e darem risada. Creio que as maiores surpresas do caminho foi descobrir que o que é feito com as vacas quando elas morrem. Eles não as comem, mas também não fazem questão nenhum de dar um tratamento especial para os restos mortais do animal. Eu vi um cemitério de vacas e nesse cemitério, os corpos das vacas são apenas jogados para apodrecer, se decompor e servir de alimento para corvos. Havia montanhas de esqueletos e corpos podres que exalavam um dos piores cheiros que já senti.”

“No final da tarde fui para a frente do Ganges e tentei, em vão, ter alguns minutos de paz. Paz é o que não há nesta cidade, especialmente para os estrangeiros, que são perseguidos pelos indianos que pedem esmola, vendem velas para o rio, oferecem viagens de barco, rickshaw, droga e qualquer outra coisa que você queira e também não queira. O Ganges, ou Grande Mãe, também não é muito bonito, sua água marrom e poluída não faz desse rio um convite ao mergulho. Você nadaria no rio Tietê em São Paulo? Se sim, você encara o Ganges.”

“Talvez uma das imagens mais clássicas da Índia. Cada cena é pitoresca e tipicamente indiana. Apesar do show é dificil ver as pessoas entrando naquela água. Cerca de 60.000 pessoas vão diariamente ao rio, no entanto o esgoto de diversas cidades está sendo depositado no mesmo rio. A água é altamente poluída e estudos mostrando que em Varanasi 100 ml da água desse rio contém cerca de 1.5 milhões de coliforme fecais. O número máximo para banho é de 500!!”

“Depois disso não é mais necessário dizer nada. Eles estão nadando no esgoto, mas como o rio é sagrado, não se importam. Pior do que isso, é que cerca de 400 milhões de pessoas vivem perto das margens deste imenso rio. Conforme a poluição cresce, o número de doenças e problemas ligados a essas pessoas também aumenta. Nos anos 80 e 90 a Índia tentou desenvolver um programa de limpeza do rio, mas ele não foi bem sucedido e o rio continua a sofrer com a crescente poluição.”

“Após percorrer alguns quilômetros do rio no pequeno barco, paramos no ghat onde a maior parte dos corpos são queimados. Devia haver cerca de 10 fogueiras alí, 4 delas com fogo alto e as outras já em apenas cinzas ou já prontas para cerem acendidas. O fogo não para nunca. Com cerca de 300 corpos sendo queimados por dia, as 24 horas do dia parecem não ser suficientes.”

“O local não era limpo e organizado como o que eu havia visto em Kathmandu. Aqui os corpos podem ser vistos facilmente dentro da fogueira e por vezes, devido ao preço da madeira, não lenha suficiente para queimar todo o corpo e sobra alguma parte, como um pé ou um pedaço da cabeça. Aqui também as fotos são proibidas, mas nada que 2 ou 3 dólares não resolva. De qualquer forma, eu resolvi não tirar nenhuma foto mesmo, pois além de morbidas seriam bem feias.”

“Quando cheguei dentro do templo vi sangue escorrendo pelo chão e o indiano que me guiava logo me levou para lá, dizendo ser o local do sacrifício. Eles sacrificam cabras todos os dias alí, especialmente as negras, que parecem agradar mais a deusa Kali.”

“Enquanto comia conheci algumas pessoas de Israel e outros países e ficamos conversando por um bom tempo. Até que resolvemos tomar uma cerveja diante do calor que fazia. No entanto, cerveja é uma coisa que é muito difícil de ser encontrada na Índia, especialmente numa cidade considerada sagrada como Varanasi. Aqui não existe bar ou qualque tipo de lugar para se tomar qualque tipo de bebida alcoólica. Assim não tivemos opção, fomos para a beira do rio tomá-las. E assim encerramos a noite, tomando apenas uma garrafa de cerveja na frente do rio mais sagrado da Índia e ao lado de dezenas de mendigos.”

“Pelas ruas da cidade eu caminhei, vendo pessoas defecarem na calçada, tomarem banho com uma água marrom, que saia de canos de prédios e cozinharem nesse mesmo chão. Não era a imagem mais agradável de ser ver, mesmo assim era bom que eu fosse me acostumando. Quando cheguei na rua das bicicletarias, todas estavam fechadas às 10 da manhã. Descobri que o comércio não tem hora para abrir suas portas na Índia, ficando a critério de cada um a hora em que abrirá suas portas.”

Ah, a Índia, que medo… Só de pensar! Créditos do Texto: Pedal na Estrada e boa viagem (se é que isso seja possível) pra quem, depois de tudo isso, ainda pensa em um dia ir pra essa maluquice de lugar!

1 comentário Comentário

  1. E basta ver o filme: Quem quer ser um Milionário.
    É pobreza mesmo!!!!!
    Infelizmente não é só festa e gente linda como mostra a novela. Mas eu gostaria muito de ir… assim como gostaria de visitar Angola e Moçambique. Um dia quem sabe…
    Beijos

    Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *