Posts marcados na categoria Destaques

07 fev, 2018

Livro: Mulheres Sem Nome

Mais um livro fantástico que merece muito a resenha, mas vamos primeiro a sinopse:

A socialite nova-iorquina Caroline Ferriday está sobrecarregada de trabalho no Consulado da França, em função da iminência da guerra. O ano é 1939 e o Exército de Hitler acaba de invadir a Polônia, onde Kasia Kuzmerick vai deixando para trás a tranquilidade da infância conforme se envolve cada vez mais com o movimento de resistência de seu país. Distante das duas, a ambiciosa Herta Oberheuser tem a oportunidade de se libertar de uma vida desoladora e abraçar o sonho de se tornar médica cirurgiã, a serviço da Alemanha. Três mulheres cujas trajetórias se cruzam quando o impensável acontece: Kasia é capturada e levada para o campo de concentração feminino de Ravensbrück, onde Herta agora exerce sua controversa medicina. Uma história que atravessa continentes — dos Estados Unidos à França, da Alemanha à Polônia — enquanto Caroline e Kasia persistem no sonho de tornar o mundo um lugar melhor. Costurado por fatos históricos e personagens femininas poderosas, Mulheres Sem Nome é um romance extraordinário sobre a luta anônima por amor e liberdade. Um livro inspirador, que encanta e comove até a última página.

O livro conta a história de 3 mulheres com vidas completamente diferentes, mas todas impactadas pelos horrores da Segunda Guerra. Caroline, Herta e Kasia são as protagonistas do livro. Os capítulos são narrados em primeira pessoa e vão se intercalando entre as personagens, por conta disso, em certos momentos a história, ao menos pra mim, desacelerou um pouquinho. Especialmente com a história de Caroline e mesmo sendo uma figura extremamente altruísta e heróica no livro, seu romance com o Paul e todos os detalhes de sua vida glamourosa as vezes me cansava um pouco, mas nada a ponto de não querer continuar com a história.

Kasia e Herta sem duvida alguma tem as histórias mais impactantes. Herta é a médica sem perspectiva alguma na carreira que numa decisão abrupta, foi para um campo de concentração destinado a mulheres trabalhar como cirurgiã e isso não implica na medicina que salva vidas, mas sim, nas atrocidades que muitos médicos fizeram nesses campos. Herta foi esse tipo de médica. Preocupada em ajudar sua mãe e ter um reconhecimento maior em sua carreira como médica? Não sei. Por mais que inicialmente pareçam boas intenções, é difícil de compreender suas decisões num cenário como esse. No começo você vê uma Herta meio que negando aquilo que está bem na sua cara, depois justificando seus atos, com isso você vai notando uma pessoa cada vez menos desprovida de humanidade no livro, é bem triste porque a todo momento você espera que num ato heroico, Herta mude de lado, mas estamos falando em histórias reais e numa guerra dificilmente terá um desfecho feliz, só achei que faltou falar um pouco mais sobre ela no pós guerra, eu senti falta disso.

Já Kasia é brilhante. Sua coragem, determinação e vontade de viver é surpreendente na história. Por mais que soubesse dos riscos que corria ao entrar pra Resistência, Kasia jamais imaginaria que sua decisão e um passo errado fosse afetar diretamente também a vida de sua mãe e irmã. Kasia é uma pessoa que foi endurecida pela guerra, incapaz de confiar 100% e a transmitir o amor, ela trava uma luta interna no pós guerra e o final é surpreendente. O livro é dividido em duas partes: a segunda parte é o pós guerra e conta como e quando a vida dessas 3 mulheres se cruzaram. Tirando alguns mínimos pontos negativos, é uma leitura prazerosa e deveras emocionante que vai levar 5/5 xícaras de café (por sugestão do Rick, mudei um pouquinho o critério de avaliações dos livros, agora é de 1 à 5 e ficou bem melhor pra dar a nota né?).

Baseado em fatos reais, no final a autora explica e aponta o que é fictício, o que é real na narrativa e como foi sua pesquisa minuciosa para concluir o livro. Sem duvida, Mulheres Sem Nome é uma história sobre altruísmo, atrocidades e bravura, é a vida de 3 mulheres que representam todas as outras milhares que passaram por essa guerra.

25 jan, 2018

duas redes sociais legais para amantes de livros

Semanas atrás fiz um post falando sobre sites legais para baixar livros e hoje vou falar de duas REDES SOCIAIS super legais para os amantes de livros. A primeira que conheci foi o Skoob que já citei diversas vezes aqui no blog, mas nunca escrevi um post sobre ele. O Skoob eu já tenho há um bom tempo e é a que mais uso quando se trata de livros:

Skoob

Eu precisava de um espaço virtual pra organizar minhas leituras e o Skoob (*Skoob = Books) me serviu muito bem, tudo é separado por estantes: de livros lidos, os que você quer ler, os que já leu, relendo, resenhas e até uma listinha negra das leituras abandonadas. Além disso tem outras diversas funcionalidades, algumas delas eu nem uso, como por exemplo, as discussões em grupo, tem também as metas de leitura que infelizmente, sabe-se lá por qual motivo, eu nunca consegui usar, porém uma das coisas que eu mais gosto no Skoob são as resenhas dos leitores que sempre dou um bizu antes de começar com algum livro, isso pra mim tem uma função 10/10 porque pelos feedbacks você já consegue ter uma boa noção se aquela leitura vale ou não a pena. O Skoob tem aplicativo pra celular, sorteio de livros, opções de troca entre os usuários, widget pra blogs, mas ainda acho que a interface do site poderia ser melhorada. De qualquer forma é a minha rede social de livros preferida e a mantenho sempre atualizada. Aliás, acho que é inclusive, a única rede social para livros brasileira (me corrijam se eu estiver errada).

A segunda rede é o GoodReads que é da Amazon:

Eu criei uma conta no GoodReads em Janeiro de 2016, mas nunca tinha usado até então… Agora no começo do ano resolvi aderir à ela também e gostei bastante. O site é em inglês, ainda não tem a opção em português, mas dá pra procurar por títulos no nosso idioma sem problema algum. Eu ainda não me acostumei muito com a interface do site, mas achei tudo muito bem dinâmico, apesar disso. Consegui por exemplo, estabelecer as minhas metas de leitura para 2018 que funciona como um contador, coisa que não consigo fazer no Skoob. As funções de procura e listas de livros são basicamente as mesmas e não muda muita coisa, os widgets para blogs são mais bonitinhos, tem aplicativo pro celular e há uma opção de My Kindle Notes & Highlights que nada mais é, você poder adicionar notas e destaques do livro que você está lendo pelo Kindle e eu achei isso deveras interessante, se não tivesse o grande porém de só funcionar nos Kindles de livros comprados no Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. Uma pena. De qualquer forma é uma ótima rede social pra quem pretende manter as leituras organizadinhas.

Skoob X GoodReads, qual é o melhor?

É um pouco difícil responder isso, mesmo porque eu estou usando o GoodReads há pouco tempo, então eu acharia até injusto escolher o melhor. O fato é que pra mim, o que as vezes falta em um, acaba sendo compensado no outro e as funções básicas de ambos praticamente são as mesmas. Ambos também poderiam melhorar algumas coisas, mas a principal função: que é organizar as leituras, os dois cumprem muito bem o papel.

18 jan, 2018

minha saúde sendo vegana

Quando comecei a falar aqui no blog sobre minha transição para o veganismo eu prometi que quando passasse por uma nutricionista e tivesse uma avaliação concreta sobre a minha saúde, eu contaria tudo aqui no blog. Pois bem, no começo de dezembro eu passei em consulta com a nutricionista Carina Amorim. A Cá é especializada em nutrição voltada ao esporte e obviamente, como uma boa profissional que é, também atende os veganos que praticam esportes e que segundo ela: são muitos os que ela cuida.

Fiz um hemograma completo, tão completo que tive que fazer esse exame deitada na maca porque me drenaram 25 tubinhos de sangue, foi um exame pra literalmente me mapear dos pés a cabeça, nunca tinha feito algo tão completo assim e durante esse período de dezembro + festas e começo de janeiro, ela me passou um plano alimentar que nem vou chamar de dieta, mesmo porque, não é nada de tãooo diferente do que já comia, porém com algumas adequações, pois pela bioimpedância, minha massa muscular estava um pouco baixa.

Vale lembrar que (óbvio) eu não como nada de origem animal: nem ovos, leite ou derivados e carne muito menos. Aliás, aqui cabe uma ressalva: muito raramente eu escorrego no queijo quando basicamente não tem muito pra onde fugir (e as vezes não tem mesmo), de qualquer forma, eu parei de comprar queijos em casa e quando posso, evito ao máximo, por isso que eu ainda chamo a minha situação de processo para o veganismo. Durante esse tempo de festas, também teve o recesso da academia e fiquei um pouco mais de tempo sem treinar e correr… Bem… Eu preciso tomar vergonha na cara pra voltar a correr como antes, dei uma relaxada nisso. Enfim… Ontem foi o retorno com a nutri, levei meu hemograma, fizemos novamente a bioimpedância e vou dizer: estou feliz e até surpresa!

Ela ficou maravilhada com meu exame porque segundo as palavras dela: minha saúde está perfeita e redondinha, principalmente pra uma pessoa como eu que não consome nada de origem animal. Colesterol, tireoide, glicemia, hormônios, tudo perfeito!! Inclusive, aumentei bem o percentual MASSA MAGRA e diminui o percentual de gordura. E isso SÓ na base uma alimentação saudável sem nada de origem animal, então, acho que isso já responde a famigerada pergunta que todo mundo faz para os veganos:

Mas e as proteínas?

Dito isso, só vou precisar suplementar a B12 (que eu já sabia), aliás, preciso dizer: o Ricardo TAMBÉM vai ter que repor a B12 e ele COME CARNE, ou seja amores, isso não é uma ‘exclusividade’ de veganos! E vou ter que suplementar a vitamina D também que já tive deficiência dessa há uns anos atrás e como eu sou do tipo vampiro que foge do sol, eu já estava suspeitando que talvez precisasse repor essa vitamina mesmo e tudo bem.

No mais, eu estou até pensando em enquadrar esse hemograma pra esfregar na cara de quem fala que é impossível ser vegano E saudável, que é impossível seguir uma vida livre de crueldade animal porque precisamos da carne e dos derivados ou a famosa: que é impossível obter massa magra sem comer carne. A gente ouve diversas críticas e achismos quando decide ir para o veganismo, mas se você estivesse comendo um quilo de cigarros ninguém falaria absolutamente nada. É fato! Então tem muita gente que é pela implicância mesmo e eu não sei porque uma decisão individual incomoda tanto as pessoas, mas é nessas que você aprende a ver em quem se importa mesmo com você e quem só quer te xoxar.

Sempre disse que vegetarianismo/veganismo tem que ser uma decisão pessoal de cada um, afinal de contas, você está mudando algo que fez por boa parte da sua vida, além é claro, de todos os outros pontos que o veganismo engloba e que não se trata só de alimentação. Pra mim, tudo isso só reforça o que eu já sabia: que é possível SIM ser saudável livre de crueldade e reforça mais ainda quando penso que tomei uma das melhores decisões da minha vida. #GoVegan

07 nov, 2017

Farellones no Chile

Este é, finalmente, o ultimo post sobre nossa viagem ao Chile, quem quiser boas dicas sobre o deserto do Atacama aqui tem bastante informações, sobre o Chile aqui também tem boas dicas da nossa viagem anterior, mas hoje vou falar sobre o Parque Farellones que é bem pertinho de Valle Nevado e fica a mais ou menos uns 50 minutos de Santiago. Na rua do flat em que ficamos, encontramos uma agência – a Snow Tours que faz esses passeios de montanha e em vinícolas também, há diversas outras agências pelo centro da cidade que vendem esses tours, mas escolhemos essa pois estava com um bom feedback dos viajantes e era pertinho da gente, além de disponibilizarem o transporte que te busca e te deixa na porta do hotel, há também o serviço de aluguel de roupas, caso você não esteja devidamente preparado para o frio nesse tipo de lugar.

No nosso passeio estava incluso Valle Nevado + Farellones, porém, durante o caminho a nossa guia Denise, que é brasileira e muito gente boa, nos deu uma dica de ouro: quem estava indo com a intenção de esquiar, Valle Nevado era uma boa opção, contudo, quem queria se esbaldar na neve, passear ou fazer algum outro tipo de passeio, Farellones era o mais indicado e essa foi a minha real intenção, eu já teria minha cota de aventura no Atacama e esquiar não estava nos meus planos. Então, eu, Rick e mais algumas pessoas descemos em Farellones e o resto do grupo foi pro Valle Nevado e voltariam por volta da hora do almoço. Portanto, não conhecemos o Valle Nevado, mas eu e Rick passamos um dia incrível em Farellones.

A entrada no Parque, se eu não estou enganada, custa $20.000 pesos Chilenos (cerca de R$100,00) e honestamente não acho caro porque além de um lugar super lindo, com vistas maravilhosas, essa entrada dá o direito de fazer todas as atividades disponíveis dentro do parque, menos esquiar e as aulas de esqui (isso tem valor separado), você pode ficar o dia todo lá, sair do parque e voltar também, ir milhões de vezes em todas as atividades que quiser. Tem muita coisa legal pra fazer lá: passeio de bike, trineo (mais conhecido como skibunda e eu não gostei desse por motivos de: medo de descer naquela pranchinha), tubing (descer a neve com uma boia), snowboard, ski, tirolesa, teleférico, além dos cafés que ficam tanto na parte de cima como na parte de baixo do parque. Eu já tinha visto neve, mas nunca tinha estado em um lugar com tanta neve pra poder aproveitar, teve aquela nevasca tímida nesse ultimo inverno de Londres que passamos o ano novo, teve neve no Etna, mas foi tudo muito rápido, portanto se a sua intenção é literalmente brincar na neve, rolar na neve e fazer atividades na neve, Farellones é uma ótima escolha.

Como estivemos lá em Agosto, ou seja, ainda bem invernão no Chile, o parque estava completamente coberto de neve, as fotos são um pouquinho de como foi maravilhoso esse dia:

Aonde comer? Há cafés com serviço de restaurante no parque, mas por dica da nossa guia, nós fomos no restaurante de um hotel que fica um pouco mais acima, saindo fora do parque mesmo; comida honesta, preço justo e um ótimo vinho. Não lembro de quanto gastamos, mas eu sei que em Valle Nevado pra comer ou só  beber um café é muito mais caro que Farellones, tanto que a galera que foi pro Valle, decidiu almoçar em Farellones.

Apesar de muito frio, pegamos um dia lindo e sem vento e isso conta muito porque deu pra aproveitar bastante, no final do dia o frio ficou mais forte e também começou a ventar bastante, então, além de ir bem paramentado na vestimenta, é bom também checar as condições do clima antes, coisas que não podem faltar:

– Botas de Neve (se for impermeável melhor ainda, a minha não era, mas segurou de boa)
– Calça (e de preferência com uma segunda pele por baixo, eu por exemplo sinto muito frio nas pernas)
– Luvas (se você esquiar, escolha pelas impermeáveis, a minha é de lã mesmo)
– Casacão (daqueles pra neve mesmo, eu ainda usei uma segunda pele e um moletom por baixo)
– Gorro (parece que não, mas não dá pra ficar sem)
– Cachecol (não consigo andar no frio intenso sem um)
– Óculos escuros (imprescindível!!!! não dá pra ficar naquela neve branca de doer sem um óculos escuro)
– Protetor solar (pro rosto, o sol queima sim)
– Protetor labial (e use muito, porque tudo congela e tudo resseca)
– Água pra hidratar

Não foi o nosso caso, mas caso você não tenha algum desses itens, você pode alugar antes com a agência que você fechou o passeio, não tenho ideia de valores, mas sei que não é caro, durante a subida pra esses lugares é muito comum sentir um pouco do mal da montanha (olha ele aqui de novo), no nosso transfer, dois rapazes passaram mal, então, como precaução, eu recomendo tomar um café da manhã BEM leve.

Valle Nevado ou Farellones? Eu não estive no Valle, mas sei que é incrivelmente lindo e que vale muito a pena conhecer também, contudo, as opções pra comer são mais caras e se você tem intenção de esquiar, Valle Nevado é uma ótima escolha. Agora se você não faz questão de esquiar, mas quer aproveitar bastante o dia fazendo outras atividades na neve, Farellones é a melhor opção.

13 out, 2017

Cerro Toco – Deserto do Atacama

Quando nós fechamos a viagem pro Deserto do Atacama, entre todos os passeios que pesquisei, eu queria fazer algo que fosse mais… Como posso dizer? Algo mais ousado… Que pudesse testar meus limites ou chegar perto disso. Queria algo mais pancadão, sabe. Eu tinha pesquisado muito sobre o trekking ao vulcão Lascar (um dos vulcões AINDA ATIVO do Atacama) e fiquei doida pra fazer. Fechamos esse com a Ayllu, porém quando chegamos lá, fomos informados que a estrada que leva ao vulcão estava fechada por conta da neve e provavelmente ia continuar assim por mais um mês. Esse ano foi bem atípico no Atacama: teve muita neve e chuva, algo que não acontecia há anos e isso em meados de julho atrapalhou um pouco a vida de quem viajou pra lá. Fiquei chateada quando soube disso, é possível ver o Lascar por muitos lugares e bem pela manhã dava pra ver uma fumacinha saindo dele, foi um dos passeios que eu mais estava esperando, mas aí nos deram outra opção: Cerro Toco. Cerro Toco é um estratovulcão (ou seja, vulcão em forma de cone que são formados de camadas de fluxo de lava, cinzas e blocos de pedra) que não está mais ativo e o cume está a 5604 metros acima do nível do mar. A caminhada leva mais ou menos de 1:30 à 3 horas pra subir e mais ou menos 1 hora pra descer, é mais suave de subir que o Lascar segundo as informações passadas à nós (ahahahahaha eu tô rindo aqui sozinha porque vou chegar nessa parte), mesmo Cerro Toco sendo maior na altitude.

Então vamos pra Cerro Toco.

Por recomendação deixamos esse pro ultimo dia no Atacama, assim o corpo estaria mais aclimatado. Um dia antes fizemos uma pequena reunião com nosso guia que nos passou as condições do tempo (-10 graus durante o trajeto e -15 no cume), roupa adequada pra suportar o frio, o que levar, alimentação e alguns cuidados antes de ir. Na sexta feira o guia passou pra nos pegar cedinho e era pra ter ido mais um casal com a gente, mas eles acabaram desistindo, então fomos só nós 3. A viagem de carro durou mais ou menos 1 hora e como sempre passando por lugares incríveis, chegando lá começamos a nos preparar pra subida: gorro, paninho de proteção pra nariz e boca por conta do vento, óculos (indispensável), meias e luvas térmicas (que eu não tinha e o guia providenciou pra gente), capacete e na mochila apenas o necessário: um lanche, um saquinho bem farto de frutas secas e oleaginosas, uma barrinha de chocolate e um Gatorade de 1 litro. Paramentados, recebemos 1 bastão de trekking pra cada mão (descobri que isso realmente faz uma TOTAL diferença) e o plano era: primeiramente não morrer (ahahaha brincadeira), caminhar os 40 primeiros minutos sem pausa, depois uma pausa rápida pra tomar algo, comer umas frutinhas secas e continuar. Como caminhar em lugares assim? Passos lentos (SEMPRE!), curtos e sempre respirando devagar – conforme as passadas, não é nada parecido como se caminha na cidade, por exemplo, e menos ainda trote rápido, apenas.caminhar.devagar. Se alguém se sentisse mal era só falar, o tempo de cada um seria respeitado.

E aí fomos. Os primeiros minutos foram meio confusos pra eu ajeitar minha passada com o bastão de trekking, uma vez que coordenação nunca foi um ponto forte em mim. Rola todo um esqueminha da passada com o movimento dos bastões, mas logo me ajeitei com isso e fui. Se ajeita, sobe, respira, sobe, sobe, sobe, respira – NOSSA! QUE FALTA DE AR, NÃO TEM AR AQUI!!!! e tão logo eu também encontrei o famigerado MAL DA MONTANHA. Bom, eu já sabia que isso ia acontecer (porque 5 mil, 600 e lá vai pedrinha acima do nível do mar, fora que o Atacama já está a 2400 metros acima, é meio que né… bem previsto disso acontecer). Eu tenho um certo trauminha com esse lance de mal da montanha porque a primeira vez que senti, eu não sabia o que era e achei que estava mesmo tendo um treco (em Portillo – 2010), vomitei, não consegui comer, muita tontura e fiquei toda malzona mesmo. Em Cerro Toco não seria diferente os sintomas, o ar ali é (bem mais) rarefeito, mas eu já sabia como lidar melhor com isso. A gente estava numa subida, estava bem frio, porém, nesse aspecto foi relativamente tranquilo porque estávamos bem agasalhados, mas mesmo que você queira ou tente andar mais rápido não é possível, e não pelo caminho em si, mas realmente por conta da altitude: você sente uma pressão enorme na cabeça, dor de cabeça, batimentos acelerados, tontura e falta de ar. Não é uma sensação necessariamente que te leve ao desespero, mas assusta um pouco… Por isso que eu acho que a mente nessas horas conta tanto quanto o físico.

Fui prestando atenção nas minhas passadas, sincronizando com minha respiração e mentalizando musicas e muitas coisas boas dos momentos daquela viagem e ao longo da minha vida, pensei nos meus gatos, num banho quentinho quando pegávamos trechos com muito vento ahahaha enfim… é praticamente uma meditação e um ótimo exercício pra mentes ansiosas como a minha. Durante essa primeira etapa eu não pensei em tempo, simplesmente fui vivendo cada passo que eu dava, mas a uma certa altura eu tive que parar e respirar mais fundo, aí sim perguntei ao guia quanto tempo ainda faltava e ele disse: “nenhum, acabamos de completar os 40 minutos” UFA!!! Eu estava com a respiração e o coração muito acelerado, por um mísero segundo achei que não conseguiria, mas tratei logo de tirar esse pensamento negativo da minha mente, porque é lógico que eu ia conseguir, eu estava alí pra isso e queria testar meus limites, certo? Tomei um pouco de Gatorade, não quis comer o chocolate e o guia foi me orientando a inspirar pela boca e soltar devagar o ar pelo nariz pra equalizar minha respiração, além é claro, isso junto com os milhões de incentivos, dizendo que nós estávamos muito bem pelo tempo e distância que já tínhamos feito e isso AJUDA muito em um momento como esse.

Feito isso, continuamos nosso trekking. Teríamos mais uma hora pela frente (mais ou menos) e dessa vez alguns caminhos com um pouco mais de neve, mas nada muito tenso e deu pra fazer de boa (mais uma vez: bastões de trekking ajudam MUITO nessas horas). O objetivo do momento era: caminhar, respirar, não desmaiar, caminhar, respirar, não desmaiar ahahahaha, parei mais umas 2 ou 3 vezes, equalizei minha respiração e continuei… Desistir não tinha nem sequer passado pela minha cabeça, mesmo nos momentos mais complicadinhos. Eu só pensava em conseguir e conquistar o cume seria o meu prêmio, a minha superação. Fizemos mais uma pequena pausa e o guia nos disse: “Falta pouco! É alí (e apontou), só mais 200 metros e chegamos, bora conquistar esse cume?” Nessa hora eu acho que a sensação que dá deve ser a mesma quando se alcança o auge de uma meditação ou algum outro momento que você simplesmente se deixa levar, eu não consigo bem explicar o que exatamente de tão maravilhoso invadiu em mim nessa hora, mas acho que se o mundo tivesse acabado alí, naquele minuto, eu teria continuado minha caminhada mesmo assim porque naquele instante, era somente aquilo que importava pra mim. Acho que a corrida também proporciona muito disso, mas pra mim ali ainda era bem diferente porque eu não estava no meu “território” habitual e não estava fazendo algo que estou acostumada a fazer, entende?

E aí anda mais um pouco, respira mais um pouco, anda, anda e então chegamos. Eu não consigo por em palavras a sensação louca que é de chegar no cume de uma montanha, ao mesmo tempo que você se sente grande por ter conseguido, você se sente tão pequeno quanto um grão de areia também, porque é só olhar em volta e sentir como somos tão insignificantes em relação natureza, ao mundo e ao universo. Super piegas eu ficar retratando essas emoções, eu sei, e mais piegas ainda foi quando eu sentei numa pedra pertinho de uma pirambeira e comecei a chorar (é lógico que eu ia chorar, alguém ainda tinha duvida disso? ahahaha), mas são registros meus que eu gosto de deixar aqui. Com certeza foi uma superação pra mim, de todos os trekkings e trilhas que já fiz, Cerro Toco foi o mais emocionante de todos e o que mais mexeu comigo. A volta foi bem mais curta, o que não quer dizer que foi ao mesmo tempo fácil. O Rick e o nosso guia desceram como se estivessem apenas descendo uma escada, eu que sou mais comedida (leia-se medrosa), fui bem mais devagar. Quer dizer, foi e não foi mais fácil. Descida sempre tem aquilo de firmar o pé antes de dar o passo seguinte pra não sair rolando até ir parar na cidade e como o caminho da volta era cheio daquelas pedrinhas soltas, isso me rendeu um escorregão, nada sério, mas o Claudio (o guia) disse que sendo assim eu já poderia ter minha propriedade em Cerro Toco, é tipo um “batismo” pra quem leva algum tombo ou escorregão nas montanhas ahahaha.

A volta nos despedimos de Cerro toco e com uma vista linda de Licancabur (que está ainda nos meus planos) e depois de toda a experiência, penso que foi bom o vulcão Lascar não ter dado certo dessa vez, o trekking dele é um pouco mais difícil e leva mais tempo, eu teria conseguido ele também, mas teria sofrido mais. Algumas coisas que preciso mencionar: faço academia, corro e mesmo assim, não foi algo fácil pra mim. Eu acredito que Cerro Toco seja um trekking acessível pra (quase) todos, mas tenha em mente os perrengues também, porque como disse lá em cima: a mente é tão importante quanto o preparo físico e se você não estiver com o coração aberto pra isso, não vá. Outra coisa que preciso contar: o silêncio! Sim, o silêncio. Tanto quando estávamos subindo como quando estávamos descendo, é um silêncio que poucas vezes você sente na vida, principalmente quando se vive em cidades como a grande maioria de nós, a gente de certa forma se acostuma e aprende a viver com barulhos, mas o silêncio numa montanha chega a ser latente, a única coisa que você escuta são seus passos, mas o silêncio em volta chega a ser hipnotizante. Pra terminar esse post vou deixar uma música do RadioHead que viemos ouvindo na volta e me marcou muito. Esse dia está 10/10 na lista de coisas inesquecíveis em viagens.

Só pra título de curiosidade, essas são as altitudes de alguns vulcões do Atacama:

Lascar – 5500 metros de altitude
Cerro Toco – 5604 metros de altitude
Putana – 5890 metros de altitude
Licancabur – 5910 metros de altitude
Sairecabur – 5971 metros de altitude
San Pedro – 6145 metros de altitude
Aucalquincha – 6176 metros de altitude
Ojos del Salado – 6887 metros de altitude