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Livro: Hamnet

fevereiro 13, 2026

Poucas informações sobre a biografia de William Shakespeare resistiram ao tempo. Filho de um luveiro caído em desgraça de Stratford-upon-Avon, uma pequena cidade da Inglaterra, casou-se com uma mulher mais velha, detentora de um generoso dote. Tiveram uma filha e um casal de gêmeos, em um matrimônio marcado pela distância imposta por seu ofício. Além disso, a família foi abalada pela morte precoce do filho, ocorrida em uma época em que a nação era assolada por surtos de peste bubônica. É a partir dessas referências que Maggie O’Farrell cria magistralmente a trama protagonizada por Agnes, uma mulher excêntrica e selvagem que costumava caminhar pela propriedade da família com seu falcão pousado na luva e tinha dons extraordinários como prever o futuro, ler pessoas e curá-las com poções e plantas. Após o casamento, Agnes se torna uma mãe superprotetora e a força centrífuga na vida do marido, que seguira para Londres com o objetivo de se estabelecer como dramaturgo. A vida do casal é severamente abalada quando o filho Hamnet sucumbe a uma febre repentina. Um retrato brilhante de um casamento, uma evocação devastadora de uma família destroçada pelo luto e pela perda e uma reconstituição delicada e memorável de um menino cuja vida foi esquecida, mas cujo nome intitula uma das peças mais celebradas de todos os tempos. Hamnet é encantador, sedutor, impossível de largar.

Hamnet, de Maggie O’Farrell, não é um livro sobre William Shakespeare. É um livro sobre tudo o que a história, em sua pressa de consagrar gênios, deixou de fora. É sobre uma mulher cujo nome a tradição tratou como nota de rodapé e um menino cuja existência só parecia importar porque o pai, anos depois, escreveu uma peça com o seu nome quase igual. A grande força deste romance está no que ele escolhe como centro. Shakespeare, aqui, não tem nome. É apenas o marido, o pai, o filho, o professor de latim. É um gesto narrativo profundamente coerente: durante séculos, a mulher e os filhos de Shakespeare foram reduzidos a meras circunstâncias biográficas do gênio; O’Farrell limita-se a inverter o foco com a mesma mão que lhes devolve a humanidade.

Agnes — (e não Anne Hathaway) é uma das personagens mais fascinantes que a ficção histórica nos deu nos últimos anos, pra mim, o livro foi muito mais sobre ela. Herdeira de uma sabedoria feminina ancestral, ligada à terra, às plantas, à cura e a uma intuição que a época tratava como feitiçaria, ela cresce sentindo-se errada, inadequada, demasiado alta, demasiado calada, demasiado estranha. Maggie O’Farrell escreve sobre essa inadequação com uma beleza que dói, porque sabemos, como Agnes sempre soube, que o mundo raramente perdoa quem não cabe nas suas medidas.

A narrativa avança e recua no tempo como a própria memória, construindo-se aos fragmentos até que compreendamos que a morte de Hamnet não é um ponto de partida, mas o eixo em torno do qual tudo sempre girou. Sabemos, desde a primeira página, que o menino vai morrer. E ainda assim, quando a peste entra naquela casa, quando Agnes confunde os corpos dos gêmeos na exaustão de noites sem dormir, quando percebemos que a mãe salvou a filha sem saber que perdia o filho, a dor é quase insuportável.

Com uma prosa lírica, a linguagem aqui não é adorno, mas matéria viva. O’Farrell escreve como quem sente o mundo com o corpo inteiro, e exige o mesmo do leitor. As árvores, o vento, os cheiros, as texturas dos tecidos, o bater das asas de uma coruja sobre Stratford — tudo participa na geografia emocional das personagens. Não há descrição gratuita; há um universo que respira em sintonia com a dor e o amor de quem o habita.

Trailer da adaptação para o cinema:

A peste bubônica, esse inimigo invisível que entra nas casas sem pedir licença, atravessa o livro como uma sombra. Mas o coração do livro é o luto. Não o luto exemplar, redentor, cinematográfico. O luto que fragmenta, que isola, que torna impossível a linguagem. Agnes recolhe-se em si mesma, procura o filho nos cantos da casa, nos campos onde ele corria, no corpo da irmã gêmea que sobreviveu. Shakespeare foge para Londres, para o trabalho, para o palco. A arte, aqui, não é cura. É deslocamento. É a única forma que encontra de não sucumbir. E a gente compreende como cada pessoa lida com o luto.

O desfecho é conhecido de todos: quatro anos depois, o dramaturgo escreve Hamlet. O’Farrell não ousa afirmar que uma peça possa resgatar um filho, mas sugere, com uma delicadeza comovente, que talvez a arte seja o único lugar onde os mortos podem regressar e falar conosco. Quando Agnes finalmente assiste à peça do marido, compreende que a dor não era apenas sua. Havia um homem, em Londres, todos os dias, a tentar dizer o indizível.

Hamnet para se ler devagar, pra você sentir e absorver cada parágrafo. É uma obra sobre o que sobra quando desmontamos os mitos: pessoas comuns a tentar sobreviver à perda, ao silêncio, à distância. É sobre uma mãe que enterra um filho e um pai que escreve uma tragédia. É sobre o nome de um menino que durante séculos foi apenas um asterisco nos manuais de literatura e que Maggie O’Farrell, num gesto de justiça poética, devolve à vida com uma dignidade que a história lhe negou. 5/5:

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O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha à vocês, de uma mulher para outra mulher:

Acho que é de consenso histórico que a Inquisição não queimou bruxas, mas sim, queimou mulheres livres com conhecimento e autonomia sobre si mesmas. 

Curandeiras. Parteiras. Ervateiras. Mulheres que dominavam o próprio corpo, a própria fé e o próprio conhecimento. A fogueira inquisitoria nunca foi sobre magia, mas sim sobre poder. Foi sobre arrancar das mãos das mulheres o saber que as tornava LIVRES.

Chamaram de feitiçaria o que era medicina. De pacto com o diabo o que era sabedoria ancestral. De heresia o que era autonomia. 

Mas afinal, aonde quero chegar com isso? 

Bom, não ironicamente, em 2026, centenas de anos depois, o projeto continua. O que mudou foram apenas os métodos:

Hoje não é a fogueira, é o silenciamento. É a psiquiatrização da nossa raiva. É a desqualificação da nossa intuição como "histeria". É o Estado legislar sobre o nosso útero. É a violência doméstica, o feminicídi0, o estupr0. E a lógica é a mesma: nos controlar, nos calar, nos domesticar.

Resgatamos o conhecimento que o patriarcado tentou apagar com fogo. Honramos as mulheres que morreram por saber e não deixamos a história ser reescrita. Recusamos a lógica que nos quer dóceis, caladas e submissas. Praticamos autonomia sobre o nosso corpo, a nossa fé e as nossas escolhas. Transformamos a dor em magia, a raiva em ação, e a memória em resistência. E em 2026, AGORA, mais do que nunca, é exatamente sobre isso! Tudo é político. 

Não pedimos licença. Não pedimos perdão. Ocupamos nosso espaço por direito, e queimamos o que não nos serve mais. Nossa morada não é quintal do seu espaço. 

Porque tudo é político quando você é MULHER. E nesse caminho ser mulher ou uma bruxa, ou os dois rs, é resistência. É feminismo. É anticolonialismo. É luta de classe. É revolução.

Somos a resposta delas, de todas nós mulheres, bruxas ou não. Somos a fogueira que não se apagou. Porque tudo é político quando você é mulher.
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