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Livro: O Mapa de Sal e Estrelas

janeiro 21, 2026

Em meio a protestos, conflitos e bombardeios causados pela Guerra Civil na Síria de 2011, a jovem Nour é forçada a deixar o país em busca de segurança. Quase um século no passado, Rawiya, aprendiz de cartografia, traça a mesma rota numa saga épica em terras desconhecidas. As duas jornadas de amadurecimento se intercalam, ao passo que as protagonistas, embora separadas por séculos de história, representam a realidade de tantos refugiados do Oriente Médio e norte da África.

Há livros que nos visitam como convidados e há livros que entram pela porta como um vento antigo, trazendo areia do deserto e o cheiro salgado do Mediterrâneo. O Mapa de Sal e Estrelas é deste último tipo. A escrita de Zeyn Joukhadar não se limita a contar uma história; ele tece um tapete narrativo onde os fios do tempo se entrelaçam com uma delicadeza e uma força raras. Acompanhamos Nour, uma menina sírio-americana que perde o pai e retorna a Homs – na Síria com sua mãe e as irmãs e não sabem que estão prestes a ser consumidas pela guerra. O que ela leva consigo não são bagagens, mas um mapa desenhado pela mãe – um mapa feito de memória e desejo, onde os lugares são marcados não por coordenadas, mas por histórias.

Esta fuga desesperada pelo mesmo Mediterrâneo que outrora foi berço de civilizações ecoa, séculos antes, na jornada de Rawiya, uma jovem que se veste de homem para seguir o grande cartógrafo Al-Idrisi e ajudar a desenhar o mundo. A magia do romance está precisamente neste eco: a rota da fuga de Nour é a mesma rota da descoberta de Rawiya. O passado não é um capítulo fechado, mas um rio subterrâneo que corre sob os pés do presente, e Joukhadar nos faz ouvir seu fluxo constante. A cartografia aqui deixa de ser ciência exata para se tornar a arte de mapear a alma, o pertencimento – que é tratado como um ato de sobrevivência, amor e resistência de encontrar uma direção quando todos os caminhos físicos estão bloqueados pela violência. O mapa do pai de Nour, feito de sal (que derrete) e estrelas (que são inalcançáveis), simboliza a condição do refugiado: a necessidade de criar pontos de referência quando todos os lugares físicos são apagados. É uma metáfora poderosa para a identidade diaspórica.

A prosa é um espetáculo sensorial. Sente-se o calor do sol sobre as ruínas, o gosto amargo da perda, a textura áspera na pele de Nour durante a fuga. Mas mais do que isso, sente-se o peso do que significa carregar uma identidade que o mundo insiste em não ver ou querer apagar. A experiência trans do autor permeia a narrativa de forma sutil e profunda, não como um tema explícito, mas como uma compreensão íntima do que é navegar pelo mundo num corpo que precisa, por vezes, ser camuflado para sobreviver ou ser livre. Rawiya, disfarçada de rapaz, encontra na invisibilidade uma chave para a aventura; Nour, numa terra estranha, encontra na sua herança síria e na sua experiência americana uma identidade que é ao mesmo tempo ruptura e ponte.

Num tempo em que palavras como “refugiado” e “crise” se gastam no uso abstrato das notícias, Joukhadar faz o mais radical dos gestos literários: humaniza. Nour não é um número, é uma menina que cheira um punhado de sementes de romã para se reconectar com o cheiro do pai. A sua família não é uma massa anônima em fuga, é um núcleo de amor a tentar manter-se intacto enquanto tudo à volta se desfaz em pó. Este livro é, por isso, um ato político de primeira ordem: ele exige que a gente veja, sinta, e nos lembre que por trás de cada história de travessia há um rosto, um nome, um mapa íntimo de saudades.

É também um ato de restauro da memória. Ao ligar a tragédia contemporânea da Síria à sua idade de ouro da ciência e da exploração, Joukhadar nos lembra que aquelas terras não são apenas cenários de conflito, mas berços de conhecimento e de narrativas épicas. O livro luta contra o apagamento, contra a simplificação. Ele diz: nós estivemos aqui, nós mapeámos as estrelas, nós criámos beleza, e a nossa história não começa nem termina com a guerra.

Ler O Mapa de Sal e Estrelas é, no fim, aceitar um presente precioso e pesado. É um livro que ficou comigo muito depois que terminei a história, como o sabor do sal ou o brilho longínquo de uma estrela-guia. Num mundo tão partido, ele oferece uma verdade dolorosa e necessária: que mesmo quando se perde o chão, podemos ainda desenhar o nosso próprio mapa, com os materiais frágeis e eternos da memória e do amor. E isso, talvez, seja a mais antiga e a mais vital das artes de sobreviver. 5/5:

todos os livros, Escritoras Árabes

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O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha à vocês, de uma mulher para outra mulher:

Acho que é de consenso histórico que a Inquisição não queimou bruxas, mas sim, queimou mulheres livres com conhecimento e autonomia sobre si mesmas. 

Curandeiras. Parteiras. Ervateiras. Mulheres que dominavam o próprio corpo, a própria fé e o próprio conhecimento. A fogueira inquisitoria nunca foi sobre magia, mas sim sobre poder. Foi sobre arrancar das mãos das mulheres o saber que as tornava LIVRES.

Chamaram de feitiçaria o que era medicina. De pacto com o diabo o que era sabedoria ancestral. De heresia o que era autonomia. 

Mas afinal, aonde quero chegar com isso? 

Bom, não ironicamente, em 2026, centenas de anos depois, o projeto continua. O que mudou foram apenas os métodos:

Hoje não é a fogueira, é o silenciamento. É a psiquiatrização da nossa raiva. É a desqualificação da nossa intuição como "histeria". É o Estado legislar sobre o nosso útero. É a violência doméstica, o feminicídi0, o estupr0. E a lógica é a mesma: nos controlar, nos calar, nos domesticar.

Resgatamos o conhecimento que o patriarcado tentou apagar com fogo. Honramos as mulheres que morreram por saber e não deixamos a história ser reescrita. Recusamos a lógica que nos quer dóceis, caladas e submissas. Praticamos autonomia sobre o nosso corpo, a nossa fé e as nossas escolhas. Transformamos a dor em magia, a raiva em ação, e a memória em resistência. E em 2026, AGORA, mais do que nunca, é exatamente sobre isso! Tudo é político. 

Não pedimos licença. Não pedimos perdão. Ocupamos nosso espaço por direito, e queimamos o que não nos serve mais. Nossa morada não é quintal do seu espaço. 

Porque tudo é político quando você é MULHER. E nesse caminho ser mulher ou uma bruxa, ou os dois rs, é resistência. É feminismo. É anticolonialismo. É luta de classe. É revolução.

Somos a resposta delas, de todas nós mulheres, bruxas ou não. Somos a fogueira que não se apagou. Porque tudo é político quando você é mulher.
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