28 nov, 2018

San Blás – Panamá

“E quanto a mim? Eu continuo acreditando em paraíso.
Mas pelo menos sei que não é um lugar que possa procurar.
Porque não é para onde vai, é como se sente por um instante na sua vida enquanto é parte de alguma coisa.
E se achar esse momento, ele pode durar para sempre.”

– Do filme “A Praia”

Se essa viagem tivesse resumida apenas em San Blás eu já teria voltado pra casa super feliz. O Arquipélago de San Blás é um conjunto de 365 ilhas (dá pra visitar uma ilha diferente por dia, durante o ano todo ehehehe) situadas frente a costa norte do Istmo, ao leste do Canal do Panamá. É uma reserva ambiental cuidada exclusivamente pelos índios Kuna, que formam parte da comarca Kuna Yala ao longo da costa caribenha do Panamá. Conhecer San Blás pra mim foi como se eu estivesse em um lugar à parte do mundo, acho que tive essa mesma sensação quando visitei o Deserto do Atacama (e disse a mesma coisa aqui), mas é incrível quando um lugar toma esse tipo de sentimento na gente.

No próprio hostel que ficamos no Panamá, havia uma moça que organizava passeios para San Blás, tanto passeios de um dia como pra ficar hospedado nas ilhas e já adianto de antemão: passeios de um dia não compensam, se você quer aproveitar MESMO, fique ao menos uns 3 dias em San Blás. Considero que de 3 à 5 dias seja suficiente, nós ficamos 4 dias. Eu já tinha pesquisado muito antes da viagem e escolhi ficarmos na Isla Franklin – por ser um pouco mais afastada, não receber tantos turistas e ser uma ilha bem linda. Fechamos o como chegar (já com a volta), e como a moça (esqueci o nome dela!) entrou em contato com a Isla Franklin avisando que chegaríamos, um barqueiro estaria nos esperando no porto.

Saímos as 5:15 da manhã da Cidade do Panamá, um motorista num 4×4 (mais pra frente explico o porquê) veio na porta do hostel nos buscar e o itinerário foi esse aqui: mais o menos uma hora e vinte de estrada, depois 1 parada de 10 minutos num posto para ir ao banheiro, comer algo e dalí ele pega uma outra estrada em anexo para começar a entrar na reserva. Desse ponto em diante é só curva, sobe, desce, terra e pirambeira (por isso do 4×4) e isso segue por mais uma hora de estrada. Chegando ao porto que nada mais é do que um barranco aonde param os barquinhos, há vários barqueiros de várias ilhas e isso parece meio bagunçado no começo (na verdade é um pouco mesmo rs), mas é só perguntar pela ilha que você vai ficar que todo mundo vai te indicando, como chegamos já com uma reserva, já tinha um índio nos esperando e aí foi mais uns 50 minutos de barco (por isso que eu acho que não compensa ir só para passar o dia, muito embora, tem ilhas mais próximas, mas o legal de San Blás é você ficar alguns dias).

Chegamos na Isla Franklin, quem nos recebeu foi o Pali, um dos Kuna Yala que é tipo o gerente da ilha, ele indicou aonde seria bom pra gente montar nossa barraca (SIM! Nós acampamos!!!), informou o horário das refeições e como funcionava as coisas na ilha. Por se tratar de um arquipélago de ilhas de uma reserva ambiental todo recurso é limitado: primeiro porque estamos numa ilha no meio do mar do Caribe e segundo que por ser uma reserva, é a preservação que conta mais. San Blás não tem hotéis e muito menos resorts, não existe luxo, é tudo bem rústico mesmo. As acomodações são cabanas de palha com colchão OU você pode levar a sua própria morada e acampar. A energia é (bem) racionada. Não tem água quente. O chuveiro é a água tratada do mar. Não tem televisão e muito menos internet. Mas posso falar? Foram dias de literalmente dentro do paraíso pra mim. Ficamos completamente OFF do mundo, completamente desligada de qualquer coisa que fosse do lado de fora de San Blás.

Nosso mundo nesses dias foram somente nessas ilhas e pra mim foi uma das coisas mais incríveis que já fiz pra mim. Tudo é bem rústico, bem simples e tudo aquilo de sempre dizermos que “não vivemos sem”, perde todo o sentido num lugar como esse. Tínhamos todas as noites um céu escandalosamente estrelado. Um mar azul a 2 dois passos da onde eu dormia que formava uma piscina infinita. Bichos aonde realmente devem estar: na natureza. Silêncio. Paz. Quietude.
A única coisa que eu me permiti levar foi meu Kindle porque ler um livro num lugar como esse, é praticamente uma obrigação. Fomos pra outras ilhas, uma delas era forrada de estrelas do mar, a outra tinha um barco naufragado que dava pra ir de snorkel até lá, desembarcamos em um banco de areia bem no meio do mar que não tinha nada em volta, a água batia na cintura e dava pra ver os pés de tão cristalina. Um mar tão, tão azul que chega a doer tão lindo, você andava 150/200 metros com água ainda na altura do peito e cheio de peixinhos em volta.

Tinha pouquíssimas pessoas na ilha com a gente, então, todo mundo se conheceu, fez amizade e toda a noite a gente se reunia pra tomar vinho e dar risadas. É inevitável que quando fui embora de lá não teve como sentir aquele aperto no coração, teria ficado muito mais se não tivesse ainda todo um roteiro a cumprir pela frente. É incrível como esses lugares são transformadores na vida da gente, San Blás é um lugar pra ir e nunca mais esquecer porque vai ficar cravado naquela parte do seu cérebro e no seu coração que você pode até um dia esquecer o seu nome, mas garanto que se pisar em San Blás jamais se esquecerá dali.

O tempo ali parece que passa diferente, as preocupações e queixas precisam ser deixadas de lado de fora pra você conseguir mergulhar com o coração e você realmente entende que não precisa de tanta coisa pra ser feliz. O menos é mais. Acho que quanto mais eu viajo, quanto mais eu piso nos lugares que estão longe da minha casa e da minha zona de conforto, mais eu vejo o quanto ainda tenho que explorar; seja no mundo ou até mesmo dentro de mim.

Ao mesmo tempo que eu conheço eu vejo que ainda tenho muito o que conhecer, porque eu ainda não vi nada, conhecer para poder viver esses lugares, para ter novas histórias, lições e aprendizados, pra sentir o quanto sou pequena e nunca se esquecer que o EGO não vale absolutamente nada nesse mundo egoísta que infelizmente a gente as vezes se acomoda tanto. Não é sobre o tanto de países no mundo você já visitou, é sobre estar de verdade em um lugar. ❤️

Dicas:
– Só entra em San Blás com passaporte.
– Leve um galão de água dependendo do tempo que irá ficar. Lá vende água, mas obviamente é mais caro. Leve alguns snacks também, tem todas as refeições na ilha, mas sempre bate uma fome fora de hora.
– O mínimo de roupa possível: se você puder deixar sua mala/mochilão aonde estiver hospedado na Cidade do Panamá e levar só uma mochilinha com o mínimo necessário, é melhor.
– Lanterna ehehehe principalmente se você vai ao banheiro no meio da noite.
– Papete funciona melhor que chinelo se você for passear em outras ilhas.
– Kindle. Fortemente. Kindle pra sempre! Leve um E-Book (livros molham e são mais pesados pra carregar, um e-book em viagens é infinitamente mais prático). É maravilhoso ler na beira da praia.
– Passeios para outras ilhas você paga à parte, quanto mais pessoas (no máximo 10), mais barato fica. Faça esses passeios ao menos uma vez.
– Faça amizades, é legal ter a turminha na ilha e fazer a piada “ei, vem pro lado divertido da ilha” ahahahahaha, nos dias em que ficamos tinha os argentinos, a colombiana e dois espanhóis, divertidíssimos.
– Assista todos os por do sol e nascer do sol também, acredite em mim: você vai sentir saudade disso quando estiver em casa, só não comece a bater palma porque ninguém vai te entender.
– Respeite a natureza, respeite todo tipo de forma de vida nesses lugares, por ex: não fique pegando estrela do mar só pra fazer a foto do seu instagram, dá pra fotografar sem precisar tocar. De nada.
– Não pense que você vai sofrer porque a água do chuveiro não é quente, porque não tem internet e nem tv, porque o chão da sua cabana é areia batida, porque as 9 da noite não tem mais nada de energia elétrica, quando você chegar lá e olhar em volta, vai perceber que realmente não precisa de nada disso (e não vai sentir falta).
– Vá com o coração aberto. MEU DEUS É SAN BLÁS. Não existe como não abrir o coração pra esse lugar tão maravilhoso.

Juliana Esgalha

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1 Comentário

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    Liliana
    novembro 28, 2018

    Que lindo Juli!!! Hermosa nota sobre San Blas, comparto todo lo que dices. Fue una maravilla conocerlos a ustedes y a ese paraiso tan bello!!!