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Livro: Dele & Dela

maio 6, 2026

A repórter Anna Andrews jamais quis voltar para Blackdown, uma pacata cidadezinha nos arredores de Londres, onde morou anos atrás. Mas, com seu emprego ameaçado por uma rival no trabalho, ela não tem escolha a não ser aceitar a missão de cobrir a história de um crime ocorrido em sua antiga cidade. O assassinato brutal de uma mulher abala Blackdown, atraindo a atenção da mídia. Relutante, Anna se dirige à cidade, determinada a fazer o seu trabalho e partir o quanto antes sem se envolver com o seu passado. O detetive Jack Harper, por sua vez, não sai de Blackdown há anos. Sobrecarregado com compromissos familiares, ele anseia por um pouco de emoção… mas investigar esse assassinato, um caso cada vez mais importante e arriscado, não é exatamente o que tinha em mente. Quando percebe que Anna está de volta a Blackdown, seu mundo vira de cabeça para baixo. Anos atrás, Jack e Anna tiveram um relacionamento, e os dois têm conexões profundas com a mulher assassinada — conexões que, se vierem à tona, farão deles os principais suspeitos. Jack desconfia do envolvimento de Anna, mas ele também é alvo de sua própria investigação. Alguém está mentindo, e vale a pena matar para guardar certos segredos.

A estrutura da história é inteligente e bem construída. A autora alterna capítulos narrados por Anna com capítulos narrados por Jack, e esta dualidade obriga o leitor a questionar constantemente em quem confiar. Ambos escondem algo. Ambos têm motivos para mentir. Ambos, sob o escrutínio alheio, podem ser culpados de algo. O que me prendeu ao livro foi a forma como Alice Feeney dosa a revelação do passado, pra mim é esse o ponto alto do livro. Não temos acesso direto ao que aconteceu entre Anna e Jack, nem à natureza da sua ligação com a vítima. Os fragmentos vão sendo largados com conta, peso e medida: uma fotografia, uma conversa interrompida, uma memória que dói mais do que deveria. O leitor é mantido num estado permanente de suspeita, onde cada pista pode ser uma armadilha e cada confissão pode ser uma manipulação.

A ambientação em Blackdown — cinzenta e carregada de nostalgia e rancores, é um personagem por si só. É o tipo de cidade pequena onde toda a gente se conhece, onde os segredos são moeda corrente e onde o passado nunca fica realmente enterrado. Anna e Jack são personagens moralmente ambíguos, e a autora não tem pressa em revelar as suas fragilidades. Anna é obstinada, mas também desesperada; Jack é competente, mas também assombrado. A tensão entre eles — profissional e pessoal, é perigosa.

Mas… Quando a verdade aparece, você percebe que todas as pistas estavam ali, à vista, apenas camufladas pela forma como a autora construiu as perspectivas – o que pra mim, não agradou nem um pouco, achei o final bem sem noção na verdade. Algumas coincidências são esticadas ao limite, e a motivação final de um dos personagens pode parecer, pra alguns (eu), um tanto frágil para o peso da tragédia que desencadeia. Mas mesmo assim, foi um livro que gostei. 4/5:

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O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha à vocês, de uma mulher para outra mulher:

Acho que é de consenso histórico que a Inquisição não queimou bruxas, mas sim, queimou mulheres livres com conhecimento e autonomia sobre si mesmas. 

Curandeiras. Parteiras. Ervateiras. Mulheres que dominavam o próprio corpo, a própria fé e o próprio conhecimento. A fogueira inquisitoria nunca foi sobre magia, mas sim sobre poder. Foi sobre arrancar das mãos das mulheres o saber que as tornava LIVRES.

Chamaram de feitiçaria o que era medicina. De pacto com o diabo o que era sabedoria ancestral. De heresia o que era autonomia. 

Mas afinal, aonde quero chegar com isso? 

Bom, não ironicamente, em 2026, centenas de anos depois, o projeto continua. O que mudou foram apenas os métodos:

Hoje não é a fogueira, é o silenciamento. É a psiquiatrização da nossa raiva. É a desqualificação da nossa intuição como "histeria". É o Estado legislar sobre o nosso útero. É a violência doméstica, o feminicídi0, o estupr0. E a lógica é a mesma: nos controlar, nos calar, nos domesticar.

Resgatamos o conhecimento que o patriarcado tentou apagar com fogo. Honramos as mulheres que morreram por saber e não deixamos a história ser reescrita. Recusamos a lógica que nos quer dóceis, caladas e submissas. Praticamos autonomia sobre o nosso corpo, a nossa fé e as nossas escolhas. Transformamos a dor em magia, a raiva em ação, e a memória em resistência. E em 2026, AGORA, mais do que nunca, é exatamente sobre isso! Tudo é político. 

Não pedimos licença. Não pedimos perdão. Ocupamos nosso espaço por direito, e queimamos o que não nos serve mais. Nossa morada não é quintal do seu espaço. 

Porque tudo é político quando você é MULHER. E nesse caminho ser mulher ou uma bruxa, ou os dois rs, é resistência. É feminismo. É anticolonialismo. É luta de classe. É revolução.

Somos a resposta delas, de todas nós mulheres, bruxas ou não. Somos a fogueira que não se apagou. Porque tudo é político quando você é mulher.
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