
Bem-vindo ao Salão Camélia, um refúgio místico para almas presas entre a vida e a morte. Quando a primeira neve cai na Ilha das Camélias, uma pousada abre suas portas. Lá, as almas dos mortos vão passar 49 dias tomando chá, ouvindo música e compartilhando histórias, para então decidir se voltam à vida ou se partem para a existência no além. Desta vez, quatro pessoas chegam de trem, ainda sem saber como foram parar lá: uma jovem que perdeu a memória, um estudante solitário, um idoso cansado e uma mulher que passou a vida limpando a sujeira dos outros. Sob o olhar atento da misteriosa proprietária e de seus três enigmáticos funcionários, aos poucos os hóspedes vão revisitar o passado, relembrando com alegria os momentos felizes e enfrentando os ruins. Com o passar dos dias, segredos virão à tona para mostrar como as histórias de todos ali estão mais conectadas do que se imaginava e por que o destino quis uni-los nessa encruzilhada da vida. Ao final de sua estadia, quando as camélias enfim florescerem, para onde eles decidirão partir?
Tive um pouco de dificuldade no começo em familiarizar com os nomes dos personagens, mas nada que atrapalhou na história, no começo do livro há uma playlist com todas as musicas tocadas durante a narrativa e eu achei isso bem legal. A história começa onde muitas terminam: no momento em que a vida acaba. Quatro pessoas, cada uma com a sua dor, o seu arrependimento, a sua história não contada, chegam à Ilha das Camélias sem saber como. São recebidas na Pousada Salão Camélia, um lugar que existe no intervalo entre a morte e o que vem a seguir. Ali, as almas têm quarenta e nove dias para tomar chá, ouvir música, recordar. E decidir: voltar ou partir.
E é nessa premissa que Ko Su-ri constrói uma obra que é ao mesmo tempo um mistério, um drama familiar e uma reflexão sobre o que significa ter vivido. Cada hóspede tem uma história. E cada história está ligada a outro história, como se o destino tivesse tecido uma teia invisível que só se revela aos poucos. A jovem sem memória. O estudante que nunca foi visto. O idoso que já não espera nada. A mulher que limpou a sujeira dos outros a vida inteira. À medida que os dias passam, as suas histórias vão-se desenrolando, não com pressa, mas com a paciência de quem sabe que o tempo, ali, é diferente. A proprietária da pousada, com a sua serenidade inquietante, e os seus três funcionários, cada um com a sua própria missão, observam, guiam, mas nunca interferem. O que acontece entre os hóspedes é deles. E é bonito de ver ao mesmo tempo que doloroso.
Pra mim o forte do livro está na forma como Ko Su-ri trata a morte. Não como um fim, mas como uma transição. As cenas em que os personagens recordam os seus momentos mais felizes e os mais dolorosos, são escritas com uma delicadeza que evita o melodrama. A prosa é calma, quase hipnótica. Há passagens em que o tempo parece suspender-se. E depois há outras em que a revelação chega como uma onda, e somos levados com ela. A autora não tem pressa em dar respostas. E quando as dá, são tão silenciosas que quase as perdemos.
O final é um daqueles que nos deixa a pensar. Não sobre o que aconteceu, mas sobre o que teríamos feito. Sobre o que ainda podemos fazer. Sobre o que nos arrependemos e o que nos orgulha. “A Misteriosa Pousada da Despedida Final” é um livro sobre a morte, sim, mas é também um livro sobre a vida — sobre como a vivemos, sobre como a recordamos, e sobre como, mesmo quando parece que já não há mais nada a dizer, ainda há uma história que pode ser contada. 5/5:







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