
“Tova, uma viúva septuagenária em luto. Marcellus, um polvo-gigante-do-Pacífico que vive em um aquário. Um ensaio sobre como a solidão pode ser transformada e superada com o toque sutil de outra criatura. “Uma cativante e sensível obra de estreia sobre a sensação de ter o amor roubado de si, apenas para reencontrá-lo no lugar mais inesperado… Memorável e delicado.” ― Washington Post “Cada protagonista é profundamente humano, com falhas e excentricidades desenvolvidas com cuidado. Mas o que deixa o romance de Van Pelt mais charmoso e divertido é a amizade carinhosa entre espécies e as formas como Tova e Marcellus tornam um ao outro mais extraordinários e brilhantes.” ― BookPage “Para além da amizade inesperada, o romance de estreia traz uma reflexão completamente original acerca da perda e dos laços que nos motivam a seguir em frente.”
Daquelas histórias que você se pergunta: por que eu não li esse livro antes?
Tova é uma senhora de 70 anos, viúva que trabalha como faxineira noturna no aquário da pequena cidade de Sowell Bay. Viúva há alguns anos e em luto pela morte do filho, desaparecido no mar décadas antes, Tova move-se entre as tarefas rotineiras com a precisão de quem já não espera surpresas. As suas noites são silenciosas, os seus dias, vazios.
Shelby Van Pelt comete aqui um feito notável: escreve um romance onde o leitor torce por um polvo como torceria por qualquer herói humano. Marcellus é brilhante, sim, mas é também vulnerável, irônico e, de certa forma, tão solitário quanto Tova. Através dos seus pensamentos — que a autora nos permite acompanhar —, vemos o mundo com uma estranheza refrescante. Os hábitos humanos, os rituais, as mentiras que contamos a nós mesmos, tudo isto é dissecado pela inteligência de um polvo que, afinal, pode não ser assim tão diferente de nós.
A narrativa alterna entre o ponto de vista de Tova, o de Marcellus e o de Cameron, um jovem desorientado que surge na cidade em busca de respostas sobre o seu próprio passado – na verdade seu pai. O que parece, a princípio, uma história desconexa, vai-se entrelaçando com a delicadeza de uma renda. Os fios de luto, de abandono, de segundas oportunidades e de redescoberta familiar vão-se unindo até formarem um todo que é simultaneamente agridoce e luminoso.
A mensagem principal do livro está na forma como Van Pelt trata o tema da perda. Tova perdeu o marido, perdeu o filho, perdeu o sentido da vida. Cameron perdeu a mãe, perdeu o rumo, perdeu a capacidade de confiar. Marcellus perdeu o oceano, perdeu a liberdade, perdeu os seus. E é na partilha dessas ausências que encontram, cada um à sua maneira, algo que se aproxima da cura. Não uma cura mágica, resolutiva, mas uma trégua. Um espaço onde a dor se torna suportável porque está a ser dividida.
O final é comovente sem ser piegas, surpreendente sem ser rebuscado. Shelby Van Pelt não recorre a grandes reviravoltas; prefere a verdade silenciosa das pequenas descobertas. E quando a última página se fecha, fica a sensação de que se leu algo mais do que um romance sobre um polvo e uma velhinha. Leu-se um tratado sobre a solidão, sobre a inteligência emocional, sobre a capacidade que todas as criaturas — humanas ou não — têm de se salvarem mutuamente, mesmo quando não sabem que estão a fazê-lo.
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes é um livro para quem já perdeu alguém e não sabe como continuar. Para quem precisa de ser lembrado de que o mundo está cheio de encontros improváveis. E para quem ainda acredita que a ternura, essa coisa frágil e poderosa, pode nascer nos lugares mais estranhos — inclusive no interior de um tanque de aquário, sob o olhar calmo de um polvo que, afinal, sempre soube mais sobre nós do que jamais desconfiamos. Se tornou uma das leituras favoritas do ano e um dos favoritos da vida. 5/5:







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