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Livro: Dezenove Minutos

abril 6, 2026

Sterling é uma cidadezinha comum do interior, onde nada acontece – até o dia em que a quietude é abalada por um terrível ato de violência. Peter, um adolescente socialmente isolado que há anos sofre bullying, um dia leva uma arma para a escola e abre fogo contra os colegas, matando dez pessoas. Narrações do passado revelam como as constantes provocações dos outros alunos levaram Peter a se isolar, buscando refúgio em jogos violentos de computador. Josie, filha da juíza responsável pelo caso e que já foi a melhor amiga de Peter, deveria ser a testemunha mais valiosa de acusação, mas não consegue se lembrar do que aconteceu bem diante de seus olhos – ou será que consegue? Conforme o julgamento avança, rupturas entre os adolescentes da escola e a comunidade adulta começam a se revelar, destruindo famílias e as amizades mais íntimas.

Quanto tempo dura um massacre escolar? Dezenove minutos, informa-nos o título. Quanto tempo durou o sofrimento que o precedeu? Anos. Décadas, talvez. Uma vida inteira de pequenas mortes diárias.

Sterling é típica uma cidadezinha americana onde toda a gente se conhece, onde as crianças crescem nos mesmos bancos de escola que os pais, onde os problemas se varrem para debaixo do tapete e ninguém faz perguntas incomodas. Até ao dia em que Peter Houghton, um adolescente de dezessete anos socialmente invisível, entra na escola com uma arma e mata dez pessoas. É a história que todos os noticiários contam. É a narrativa familiar, quase banal na sua tragédia repetida. O que Jodi Picoult faz neste livro, que aliás é sua marca registrada, é contar a outra história – a que ninguém quer ouvir, e é isso que eu amo em seus livros, ela mostra todos os lados de um mesmo acontecimento, sem tomar partido, mas que nos faz refletir ainda mais quando se trata de uma tragédia tão brutal.

A narrativa não se centra no massacre. Centra-se nos anos que o precederam. Nos empurrões nos corredores que ninguém viu. Nos apelidos que se tornam nome. Na solidão de um alguém que nunca foi convidado para uma festa. Na violência silenciosa que uma comunidade adulta escolhe ignorar porque “os invisíveis são assim”, porque “crianças podem ser cruéis”, porque “ele precisa aprender a se defender”. Peter não é monstro de um dia para o outro. Peter é uma montanha de pequenas mortes que um dia decidiu que já não ia morrer sozinho.

Picoult neste livro comete a ousadia de pedir que olhemos para o agressor não como um monstro, mas como uma pessoa. Eu acredito que esta é a linha que divide os leitores. Há quem considere que qualquer tentativa de compreender Peter é uma forma de desculpar o imperdoável. A autora não concorda – e não concorda com razão. Compreender não é perdoar. Compreender é a única forma de impedir que se repita. A narrativa de Peter não o absolve, mas explica. E a explicação dói mais do que qualquer justificação.

Paralelamente, acompanhamos Josie. Josie foi a melhor amiga de Peter na infância, antes de se integrar no grupo popular, antes de aprender que para sobreviver no universo cruel de um ensino médio, é preciso estar do “lado certo”. Josie é filha da juíza que preside ao julgamento. Josie é a testemunha do massacre – e diz que não se lembra de nada. Ou será que se lembra, e o que viu é muito terrível para contar?

Aos poucos, o livro desmonta outra narrativa: a das vítimas inocentes. Não porque os mortos não mereçam luto – é claro que merecem, mas a hierarquia do sofrimento que se estabelece depois da tragédia apaga outras vítimas. Os pais de Peter, que perderam um filho muito antes daquele dia e o perderam de forma definitiva naqueles dezenove minutos. O irmão mais velho, sempre “perfeito”, e Peter sempre invisível na sua perfeição. Os sobreviventes, que carregam consigo não apenas as balas, mas a culpa de terem, de alguma forma, contribuído para aquele dia.

O julgamento é o eixo narrativo, e a verdadeira corte é a opinião pública. A autora, assim como em suas outras histórias, nos conduz por um percurso desconfortável: começamos a odiar Peter, depois começamos a duvidar, depois percebemos que qualquer um de nós poderia ter feito algo – nem que fosse um olhar, um convite, um “está bem?” – e não fez. Talvez seja essa a grande essência do livro: a ausência de respostas fáceis. A mãe de uma das vítimas, diz que não consegue perdoar Peter. “Se eu perdoá-lo, tenho de começar a perguntar porquê. E se começar a perguntar porquê, tenho de me perguntar a mim mesma o que eu podia ter feito.” É mais fácil odiar. O ódio não exige auto reflexão.

Dezenove Minutos é um livro sobre bullying, mas é sobretudo um livro sobre cumplicidade. Sobre como a sociedade, de alguma forma, participa na construção de monstros. É sobre a violência que se tolera nos corredores das escolas, nas salas de professores, nas conversas de café. É sobre o preço que se paga por olhar para o lado. O final é agridoce. Há justiça, mas não a que se espera. Há perdão, mas não aquele que redime. Há a sensação de que, no fundo, aqueles dezenove minutos não foram apenas o tempo de um massacre – foram o tempo que levou uma comunidade inteira a perceber que o mal não nasce de repente. Cresce devagar, dia após dia, nas entrelinhas do que ninguém quis ver.

Para quem procura um livro que conforte, este não é. Para quem procura um livro que inquiete, que perturbe, que deixe perguntas a ecoar muito depois de o fechar – Dezenove Minutos é essencial. 5/5:

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O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha O voto é secreto, mas fica aqui uma reflexão minha à vocês, de uma mulher para outra mulher:

Acho que é de consenso histórico que a Inquisição não queimou bruxas, mas sim, queimou mulheres livres com conhecimento e autonomia sobre si mesmas. 

Curandeiras. Parteiras. Ervateiras. Mulheres que dominavam o próprio corpo, a própria fé e o próprio conhecimento. A fogueira inquisitoria nunca foi sobre magia, mas sim sobre poder. Foi sobre arrancar das mãos das mulheres o saber que as tornava LIVRES.

Chamaram de feitiçaria o que era medicina. De pacto com o diabo o que era sabedoria ancestral. De heresia o que era autonomia. 

Mas afinal, aonde quero chegar com isso? 

Bom, não ironicamente, em 2026, centenas de anos depois, o projeto continua. O que mudou foram apenas os métodos:

Hoje não é a fogueira, é o silenciamento. É a psiquiatrização da nossa raiva. É a desqualificação da nossa intuição como "histeria". É o Estado legislar sobre o nosso útero. É a violência doméstica, o feminicídi0, o estupr0. E a lógica é a mesma: nos controlar, nos calar, nos domesticar.

Resgatamos o conhecimento que o patriarcado tentou apagar com fogo. Honramos as mulheres que morreram por saber e não deixamos a história ser reescrita. Recusamos a lógica que nos quer dóceis, caladas e submissas. Praticamos autonomia sobre o nosso corpo, a nossa fé e as nossas escolhas. Transformamos a dor em magia, a raiva em ação, e a memória em resistência. E em 2026, AGORA, mais do que nunca, é exatamente sobre isso! Tudo é político. 

Não pedimos licença. Não pedimos perdão. Ocupamos nosso espaço por direito, e queimamos o que não nos serve mais. Nossa morada não é quintal do seu espaço. 

Porque tudo é político quando você é MULHER. E nesse caminho ser mulher ou uma bruxa, ou os dois rs, é resistência. É feminismo. É anticolonialismo. É luta de classe. É revolução.

Somos a resposta delas, de todas nós mulheres, bruxas ou não. Somos a fogueira que não se apagou. Porque tudo é político quando você é mulher.
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