
homem perfeito não existe, mas Xavier chega bem perto: um veterinário alto e lindo com uma gatinha fofa no colo. Mas então ele faz um comentário que deixa Samantha furiosa e se torna apenas mais um homem babaca entre tantos. Se tem uma coisa que ela ama é humilhar caras assim. A menos, é claro, que ele admita que errou… e que se revele muito interessante. Depois de um encontro maravilhoso envolvendo cachorrinhos, roupas encharcadas e minigolfe, a realidade se faz presente: para cuidar de sua mãe doente, Samantha vai precisar morar do outro lado do país. Embora os dois sejam perfeitos um para o outro, Samantha não consegue ver futuro no relacionamento com Xavier. Ela implora para ele esquecê-la. Para se lembrar da noite como um momento perfeito, mas que deve ficar no passado. Só que nem a distância será suficiente para apagar a conexão intensa e inesperada dos dois. E a única coisa melhor do que uma lembrança perfeita é construir uma vida e um amor que valham a pena ser lembrado.
O primeiro encontro entre eles é um desastre. Xavier comenta algo que enfurece Samantha, e ela prepara-se para lhe dar uma lição. Só que, contra todas as expectativas, um pouco depois ele pede desculpa. Com sinceridade. E revela-se encantador. O que começa como uma noite de minigolfe, cães abandonados e roupas encharcadas transforma-se numa conexão tão intensa quanto inesperada. Mas há um problema: Samantha vai mudar-se para o outro lado do país para cuidar da mãe. Não vê futuro na relação. E pede a Xavier que se esqueça dela. Que guarde aquela noite como uma memória perfeita e siga em frente.
O grande mérito desse livro está na forma como Abby Jimenez subverte o gênero. O romance não é sobre obstáculos externos que os separam e que, no fim, se resolvem num grande gesto romântico. É sobre obstáculos internos, sobre o medo de ser um fardo, sobre a culpa de querer ser feliz quando alguém que amamos está sofrendo e que precisa de nós. Samantha não foge de Xavier porque não gosta dele. Foge porque não quer ser um fardo, não quer ele sofra. E porque sabe que, no momento em que se entregar, ele também se tornará parte da sua dor.
A doença da mãe não é um mero pano de fundo dramático. É o centro silencioso do livro. Jimenez escreve sobre o declínio cognitivo com uma precisão profundamente empática. Os pequenos momentos – a mãe que pergunta repetidamente onde está o marido, o esquecimento do nome da filha, a frustração de quem sabe que se perdeu em si mesma – são descritos sem pieguice, mas com uma verdade que aperta o coração. É por isso que eu amo os livros da Abby Jimenez, que mesmo sendo romances levinhos, ela sempre trás junto outros assuntos para dar profundidade na história.
Xavier, por seu lado, não é o típico herói de romance que “salva” a protagonista, aliás eu sinceramente odeio esse estereótipo em qualquer livro. Ele é paciente, presente, e recusa-se a ser afastado. A sua força não está em grandes gestos, mas na consistência. Aparece. Fica. Mesmo quando Samantha tenta empurrá-lo para longe. A escrita de Jimenez mantém a fluidez e o humor que lhe são característicos, mas há aqui uma camada de melancolia que atravessa todas as páginas. As cenas cômicas – e há muitas – não aliviam a tensão; mas funcionam como pequenas ilhas de luz num mar de ansiedade. Sabemos, como Samantha sabe, que aquela felicidade é frágil. Que a qualquer momento a realidade pode bater à porta.
O título, “Prometa que Vai se Lembrar de Mim”, adquire camadas de significado ao longo da leitura. A princípio, parece um pedido romântico, quase banal.
Depois, compreendemos que é uma questão existencial:
O que resta de nós quando as memórias se apagam?
E o que significa ser lembrado por alguém que amamos, mesmo quando já não nos reconhece?
O final é agridoce, como a vida. Não há milagres, não há curas improváveis. Há apenas duas pessoas que escolhem amar-se apesar de tudo, que encontram formas de construir um futuro mesmo quando o presente é incerto. E há uma mensagem poderosa sobre o cuidado: que amar alguém doente não é apenas sofrimento; é também uma forma de intimidade profunda, uma maneira de conhecer o outro nos seus momentos mais vulneráveis.
“Prometa que Vai se Lembrar de Mim” é, no fundo, um livro sobre memória. Sobre as que guardamos, as que perdemos e as que escolhemos criar. É sobre a coragem de permanecer quando partir seria mais fácil. É sobre o amor que não se lembra de nós apenas no passado, mas que nos escolhe todos os dias no presente. Para quem procura um romance que faça rir e chorar, que deixe perguntas no ar e que termine com um nó na garganta e um sorriso nos lábios – este é, de longe, um dos melhores de Abby Jimenez, até o momento é o meu preferido dela. 5/5:







Deixe um comentário